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A alma dele é revestida de um feminino invisível. Transparente. Tem quebras, rasgos, impulsos, momentos de uma grande carência, de uma loucura clandestina. Eu o construo diariamente, na minha tela, lhe dou coloridos, lhe deixo a barba malfeita, o mando pra rua sozinho, inseguro, com medo dos outros. Ele atravessa a avenida S.João, se escora nas sombras dos desconhecidos, nas memórias, toma um café, tira fotos, e se sente espião de seus próprios atos, acende um cigarro, tenta espantar uma idéia de solidão. Esbarro nele, mas às vezes chego tão perto, tão dentro, quase no avesso. Depois ele se mistura, se perde no transito, despista e eu de repente o localizo enfrentando anônimo a noite, o dia, o centro da cidade, o mundo. Meio desertor da vida, inutilmente refugiado na multidão, nas esquinas, nas olheiras. Delator silencioso de não ter lugar, percorrendo os túneis da própria marginalidade. Insônia. Ele anda, para em balcões de bar, em bancas de jornais, em árvores, olha nos olhos dos outros, os outros, todos os possíveis outros que passam. Tem a alma multipartida, multifacetada. Eu o deixo de madrugada na avenida Ipiranga com um pouco de frio nas mãos e na cabeça a trilha sonora dos super herois. E uma câmera. (Com a licença poética de Bruna Lombardi)
Para voce, DocEna, com o agradecimento por partilhar conosco seu mundo imensurável de imagens e cores - continue sempre assim - multicolorido, delicado, alegre, curioso e imprevisível.
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FUNDO MUSICAL: AO MESTRE, COM CARINHO |









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